Documentos revelam que Petrobras sabia de graves problemas em Pasadena antes da compra
25 de abril de 2014Base aliada quer acelerar indicação de nomes para CPI da Petrobras
29 de abril de 2014O governo vai ressuscitar dois casos que considera escandalosos durante o governo Fernando Henrique Cardoso para perturbar os tucanos na CPI da Petrobras: a plataforma P-36, que afundou na Bacia de Campos em 2001, e a negociação da estatal para a compra de ativos da espanhola Repsol na Argentina em troca de uma participação na refinaria Alberto Pasqualini, no Rio Grande do Sul. Para os petistas, esses dois casos exemplificam o que chamam de gestão temerária e lesiva do PSDB à frente da maior empresa brasileira.
A estratégia, sugerida na semana passada, durante reunião dos líderes com os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Relações Institucionais), será intensificada a partir de hoje, em uma nova rodada de encontros no Palácio do Planalto. Ciente de que é uma perda de tempo o recurso ao plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) para reverter a decisão de uma CPI restrita à Petrobras, o Planalto tenta, agora, trazer o PSDB para o centro do ringue. “Não somos só nós que temos de explicar coisas. Eles também têm as operações nebulosas que pretendem esconder”, disse um interlocutor palaciano.
A base aliada já vinha ensaiando esse discurso, ao lembrar que a compra da refinaria de Pasadena, no Texas – que ensejou o início da corrida pela assinatura para uma CPI da Petrobras –, fazia parte de um planejamento da estatal, iniciado ainda durante o governo Fernando Henrique Cardoso, para ampliar a presença internacional da empresa. Mas faltava o levantamento de dados concretos para arrastar os tucanos à vala comum das irregularidades. A negociação com a Repsol e a tragédia da P-36 surgiram como uma oportunidade para isso.
Integrantes da base aliada que participaram desses encontros admitem que o governo teme um aprofundamento nas investigações, por exemplo, das razões que levaram a Petrobras a contratar R$ 90 bilhões em máquinas e serviços sem licitação. Além disso, outras operações de venda de ativos no exterior – como refinarias em países sul-americanos e bacias de petróleo em mares africanos – poderiam fragilizar ainda mais a imagem da empresa em um momento delicado.
Por isso, além de pesquisar com atenção denúncias de irregularidades ocorridas ao longo do governo Fernando Henrique Cardoso, a tática é escolher uma lista de integrantes de elite para a CPI. Embora não seja uma regra, existe a preferência de que os parlamentares indicados – tanto senadores quanto deputados, se for instalada uma CPI mista – não sejam candidatos nas eleições de outubro. “Isso os deixaria mais livres para se dedicar, full time, às investigações”, aposta um aliado do Planalto.
Composição
A partir de amanhã, as indicações começarão a ser feitas. O nome do líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), já desponta como um dos favoritos. O governo espera contar com o senador Romero Jucá (PMDB-RR) para presidir a CPI, mas ele tem repetido que não tem interesse na vaga. “Só relatei a questão de ordem sobre a CPI da Petrobras na CCJ do Senado porque entrei desavisadamente na sala do Renan (Calheiros, presidente do Senado)”, brinca Jucá.
Em 2009, o senador peemedebista foi relator de outra CPI que envolve a Petrobras, para investigar irregularidades na celebração de convênios de patrocínio para festas populares, e ajudou a sepultar a comissão. “Na época, ele tinha de fazer isso, era líder do governo. Hoje, ele deixa a missão para quem tem mais afinidade com o Planalto”, disse um colega de bancada.
Como o recurso do Senado perante o STF não tem efeito suspensivo sobre a liminar concedida pela ministra Rosa Weber – que determina à CPI foco exclusivo na estatal –, o governo corre para indicar os nomes e instalar o mais rapidamente a CPI do Senado, Casa considerada “mais madura” e com “menos arroubos políticos”. Há pouco mais de um mês, o Planalto trabalhava por uma CPI mista, para não dar palanque eleitoral para o pré-candidato do PSDB à Presidência, senador Aécio Neves (MG). “A oposição já conseguiu o palanque que queria com a vitória no STF. Daqui a pouco começa a Copa do Mundo e as convenções partidárias, que contribuirão para o assunto Petrobras perder espaço na mídia e no imaginário político nacional”, aposta um interlocutor palaciano.
Tragédia no mar
Os dois primeiros eventos alvos do PT para envolver o PSDB na CPI da Petrobras – a negociação com a espanhola Repsol e o afundamento da plataforma P-36 – aconteceram em 2001, época em que a estatal era presidida por Henri Reichstul. Ele é acusado pelos petistas de sugerir a mudança do nome da empresa para Petrobrax, o que facilitaria o processo de privatização da estatal.
No penúltimo ano de governo Fernando Henrique Cardoso, a Petrobras negociou postos de combustíveis, parte de um campo exploratório e 30% de uma refinaria no Rio Grande do Sul, a Refinaria Alberto Pasqualini (também conhecida como Refap), para o grupo espanhol Repsol em troca da refinaria de Bahia Blanca, na Argentina. Na época, avaliou-se que cada empresa entregava à outra um patrimônio equivalente a US$ 500 milhões.
Poucos dias depois, contudo, a crise cambial e econômica argentina desvalorizou a refinaria de Bahia Blanca. Os petroleiros entraram com uma ação que tramita até hoje no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Pelos cálculos da categoria, em valores atualizados, a Petrobras teria entregue cerca de US$ 3 bilhões de patrimônio e recebido, em contrapartida, US$ 750 milhões.
Já o acidente com a plataforma P-36 ocorreu em março de 2001, após duas explosões em uma das colunas da plataforma, a primeira à 0h22 e a segunda à 0h39. Segundo informações da Petrobras, 175 pessoas estavam no local no momento do acidente, das quais 11 morreram, todas integrantes da equipe de emergência da plataforma. Cinco dias depois, a plataforma afundou a uma profundidade de 1,2 mil metros, com estimadas 1,5 mil toneladas de óleo ainda a bordo.
