Mantega: BC vai operar FSB
23 de setembro de 2010O Brasil avança sobre o mundo
28 de setembro de 2010Ouvi esses dias uma comparação curiosa. Um economista argentino considerou que Lula é o Carlos Menem brasileiro, dando a entender que os dois promoveram um ciclo forte de crescimento, mas com um modelo cambial supostamente fadado ao fracasso. Obviamente há uma diferença fundamental de o períodoMenem ter sidomuitomais rígido na política cambial, para não dizer o oposto mesmo. Apenas a trajetória de apreciação é parecida,mas omodelo émuito diferente.
De qualquer maneira, isso me fez pensar sobre as inevitáveis comparações que sempre se faz com a Argentina, ainda mais com seus dois governos em fim de mandato. Por conta disso, nãome parece omais correto comparar Lula comMenem. Vejo a Argentina como um caso extremo de políticas que foramutilizadas no Brasil, quase uma referência a ser alcançada, mas nunca completamente atingida.Nesse sentido, vale mais comparar Menem com FHC e o casal Kirchner com Lula. Tanto FHC quanto Menem fizeram reformas profundas em suas economias,mas o argentino foimais fundo, com reformas mais completas na previdência, maiores privatizações, independência do Banco Central e um malfadado sistema de dolarização que se mostrou mortal no fim. O Brasil tinha esse desejo de reformas mais intensas, como na Argentina, mas não conseguiu. Talvez apenas a dolarização não fosse um desejo. Lula e Kirchner gradualmente desfizeram o que o governo anterior fez.
Kirchner numa intensidade muito maior, com restatizações variadas, intervenção clara no Banco Central, manutenção de câmbio nominal fortemente administrado e deterioração consistente das instituições, alémdos ataques efetivos à imprensa, com medidas concretas como o desmembramento do grupo Clarín. Aqui, Lula até gostaria de ter começado tudo diferente, mas foi forçado a se adequar e manteve uma estrutura razoavelmente similar ao governo anterior no primeiro mandato. No segundo mandato já começou a aparecer sua vertente mais caudilhesca, com gastos públicos maiores, bravatas públicas contra a imprensa e estímulo maior às empresas estatais. O provável governo Dilma tende a ser uma aceleração dessas políticas. Mas Menem e Kirchner conseguiram fazer o que fizeram devido a uma fragilidademuitomaior das instituições argentinas. Não que as nossas sejam grande exemplo,mas o caso argentino permite que figuras excessivamente personalistas como Menem e Kirchner sobrevivam. No Brasil, a possibilidade de grandes mudanças rápidas é muito menor; é um país historicamente menos volátil que aArgentina nesse sentido. Isso tema ver claramente como sentido de desenvolvimento desses países. Enquanto a Argentina vem em queda livre há quaseumséculo, o Brasil, aos trancos e barrancos, vem se desenvolvendo há quase um século, e isso vale para as instituições também. O risco que temos hoje é o governo olhar para Argentina e achar que esse é um modelo interessante. Apenas quem despreza o valor das instituições pode acreditar no conto da carochinha de Argentina e, no limite, no da Venezuela.
