“Internet freedom” and “smart power” diplomacy
25 de janeiro de 2010Leviathan stirs again
27 de janeiro de 2010Após um período inicial mais contido, a China endureceu sua posição contra as críticas americanas a suas políticas para a internet e lançou uma réplica coordenada na mídia estatal aparentemente voltada para o público interno.
Dezenas de comentários foram publicados ontem em vários veículos importantes da mídia estatal chinesa, pelo segundo dia seguido, chamando de hipócritas as críticas da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, e do Google, e acusando a gigante americana da internet de se tornar um peão numa “guerra ideológica” americana.
A ofensiva de mídia surgiu após vários comunicados oficiais que minimizaram as declarações de Clinton na semana passada sobre a liberdade de expressão na internet e as acusações do Google de que ataques cibernéticos sofisticados contra a empresa e várias outras companhias americanas vieram da China. Os comentários de ontem acusaram os EUA de usar a “liberdade na internet” como desculpa para incitar forças antichinesas, intrometer-se nos assuntos internos de outros países e enganar os usuários de internet na China.
A tentativa ampla de influenciar a opinião pública também é um reconhecimento implícito dos limites do controle governamental sobre a internet na China, assim como do rápido crescimento da população de internautas do país, avaliada em 384 milhões de usuários, o que torna a disseminação de informações na rede cada vez mais difícil de controlar. Os veículos estatais de comunicação comentaram rapidamente ou evitaram noticiar o conteúdo do discurso de Clinton ou as acusações do Google, mas após a informação se espalhar em blogs e outros veículos não oficiais, as autoridades chinesas aparentemente sentiram necessidade de esclarecer sua posição.
Um editorial publicado ontem no jornal estatal “Diário de Guangming” diz que o governo americano “está usando a tecnologia da internet como uma ferramenta para promover valores americanos em outros países. Uma desculpa para usar essa ferramenta é o chamado ‘fluxo livre de informações'”. O editorial acusa os EUA de hipocrisia porque o país “usa as vantagens da tecnologia de internet e da hegemonia para estrangular informações que os EUA consideram contrárias aos valores americanos”, e afirmou também que os EUA “foram o primeiro país a introduzir o conceito de guerra cibernética”.
Ofensivas de mídia desse porte costumam ser orquestradas pelo Departamento de Propaganda do Partido Comunista Chinês para enfatizar questões importantes para o governo. Torrente parecida de comentários foi publicada em 2008, quando o governo chinês criticou a cobertura da mídia ocidental dos protestos no Tibete.
A reação também sugere que o governo chinês não deve ser flexível nas negociações com o Google.
Embora analistas achem que a decisão do Google de parar de censurar o conteúdo na China vá provocar o fechamento de seu site no país, alguns disseram que a empresa pode conseguir manter outras operações, como escritórios de vendas de publicidade para sites no exterior ou a capacidade de administrar alguns de seus outros ativos e sociedades na China. O Google já adiou o lançamento de dois celulares da Samsung e da Motorola com seu sistema operacional Android, afirmando que seria irresponsável lançar os celulares com seu futuro na China incerto.
O tom das declarações dos últimos dois dias foi uma mudança radical em relação à reação da mídia chinesa e do público quando a notícia de que o Google poderia deixar o país começou a se espalhar. No primeiro dia depois do comunicado do Google, a possível retirada do país se tornou o tópico mais comentado entre os usuários chineses da internet, que expressaram principalmente choque e decepção pelo fechamento do segundo site de buscas mais popular do país, depois do Baidu. Um editorial publicado no site do jornal estatal “Global Times” na época afirmou que a retirada do Google pode “implicar um retrocesso para a China e uma perda grave para a cultura chinesa na internet”, enquanto outros reconheceram que o mercado chinês de internet se beneficiou da presença do Google.
O Google já disse que os hackers pareciam ter como alvo defensores dos direitos humanos e que, em resposta aos ataques e à censura de Pequim, planeja parar de censurar os resultados de busca em seu site chinês. Clinton disse em discurso na quinta-feira que os EUA fizeram do acesso livre à internet prioridade da política externa e criticou a China, entre outros países, por censurar o conteúdo. Ela pediu ainda que Pequim solucione os problemas alegados pelo Google.
Autoridades chinesas responderam que o Google e outras empresas estrangeiras que operam na China devem seguir as leis locais. A agência estatal de notícias Xinhua divulgou domingo declaração de uma autoridade anônima do Ministério da Indústria e da Tecnologia da Informação da China, que disse que as acusações de que o governo chinês está participando de ataques cibernéticos são “sem fundamento”. A autoridade disse que o país é “totalmente contra” isso.
No mesmo dia, uma coluna do principal jornal do Partido Comunista, o “Diário do Povo”, disse que os EUA usaram a internet para incitar os protestos do ano passado contra a eleição no Irã. “Temo que aos olhos dos políticos americanos a informação só seja livre quando é controlada pelos EUA”, diz. “Foi a América que começou a guerra cibernética, usando vídeos do YouTube e informações falsas no microblog Twitter para dividir, incitar e semear a discórdia entre as fações conservadora e reformista (…) para provocar um derramamento de sangue em larga escala no Irã.”
Uma coluna anterior no “Diário do Povo” afirmou: “O papel das empresas foi corrompido para atender a propósitos políticos.”
