CCJ do Senado aprova indicados para o CNJ
28 de maio de 2009O Golpe dentro do golpe
1 de junho de 2009A indicação de Thomas Shannon como o próximo embaixador dos Estados Unidos no Brasil levará a Brasília um diplomata com perfeito entendimento dos limites que os EUA enfrentam hoje em dia para recuperar sua influência em regiões que se afastaram da sua órbita nos últimos anos, como a América Latina.
Shannon, um profissional habilidoso que já morou no Brasil e fala português, é atualmente a principal autoridade do Departamento de Estado dos EUA para a região. Ele chefiou a diplomacia americana na América Latina num período em que as relações dos EUA com a vizinhança esfriaram e países como o Brasil se esforçaram para ampliar os laços com outras regiões.
“Os países da América Latina não querem mais a ajuda dos EUA e estão cada vez mais interessados em buscar sozinhos as soluções para os seus problemas”, disse a ex-embaixadora Donna Hrinak, que representou os EUA no Brasil e na Venezuela. “É uma mudança de caráter permanente, e acredito que seja para melhor.”
Desde 2006, Shannon teve três encontros com diplomatas chineses encarregados da América Latina para discutir o esforço que a China tem feito para aumentar sua influência na região. Muita gente em Washington vê essa aproximação como uma ameaça e por isso Shannon tomou a iniciativa de procurar os chineses.
As conversas ajudaram Shannon a entender melhor as motivações chinesas e a perceber que a aproximação coincide com os interesses da América Latina, porque amplia o mercado para seus produtos e gera oportunidades para investimentos. “Os EUA não tem como evitar o avanço chinês, mas trabalham para que esse processo seja mais cooperativo”, disse Dan Erikson, um pesquisador do Diálogo Interamericano, um centro de estudos de Washington.
Para Rubens Ricupero, ex-diretor-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), a China é hoje mais importante para o Brasil do que os EUA, porque garante a demanda por commodities em tempos de crise. Ele ressaltou, porém, que as relações sino-brasileiras são de “interesse mútuo” e duvidou que sejam um risco para os americanos. “A influência da China se esgota no terreno comercial. Não chega na área política”, disse.
Shannon assumiu o comando da diplomacia dos EUA na América Latina no fim de 2005, no segundo mandato do ex-presidente George W. Bush. Seus antecessores na função, Otto Reich e Roger Noriega, chegaram ao posto por causa de suas conexões com a ala mais conservadora do Partido Republicano e a influente comunidade de exilados cubanos em Miami. “Foi uma mudança de tom importante para reativar o diálogo dos EUA com muitos países”, disse o ex-embaixador do Brasil em Washington Roberto Abdenur.
Shannon manteve a cabeça fria mesmo quando novos conflitos reacenderam as tensões com a Bolívia e a Venezuela, que no ano passado expulsaram os embaixadores dos EUA acusando-os de interferir na política doméstica dando apoio a partidos de oposição. Na semana passada, Shannon foi à Bolívia para discutir a volta do embaixador americano e conversar com o presidente Evo Morales.
Para o ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, o fato de Shannon ter sido a principal autoridade dos EUA para a América Latina no governo de George W. Bush, que reforçou o anti-imperalismo na região, conta pontos a seu favor. “Ele conseguiu ter credibilidade e respeito em um momento difícil”, disse.
A melhoria observada nas relações dos EUA com a região nos últimos anos ajudou Shannon a ganhar o respeito dos colegas e a confiança do presidente Barack Obama, que conhece mal a região. Mas a América Latina não é uma prioridade para o governo americano e tudo indica que continuará assim por um bom tempo, com os EUA envolvidos em duas guerras e mergulhados na recessão.
“Houve alguma mudança de tom na linguagem usada por Obama e pela diplomacia americana, mas o novo governo ainda não definiu a substância de suas políticas para a região”, disse Stephanie Miller, analista do Centro para o Progresso Americano, um grupo de estudos influente no governo Obama. “Somente o México tem recebido mais atenção por enquanto, por causa do aumento da violência na fronteira com os EUA.”
Marcelo Coutinho, coordenador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), disse não ter ilusões de que Barack Obama veja a América Latina como prioridade, mas acredita que a indicação de Shanoon para a embaixada no Brasil significa que o novo presidente dos EUA está tratando a região com mais cuidado ao buscar profissionais experientes.
Para o ex-ministro do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, não é motivo de preocupação o Brasil não estar no centro das atenções americanas, pois como uma super potência os EUA ficam atento a países politicamente ou economicamente instáveis. “O importante é a qualidade do diálogo, que tende a melhorar com o Obama”, disse.
