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17 de abril de 2013A meta adotada pela Gol para economizar combustível depois de um prejuízo de R$ 1,5 bilhão em 2012, que tem como objetivo reduzir os gastos, pode trazer riscos aos voos da empresa, apesar de a própria negar a insegurança. Descidas diretas, desativação do reverso, desligamento de um motor e a realização de rotas mais diretas para conter os atrasos das decolagens são algumas das ações da empresa na busca pela economia.
O uso do reverso – equipamento que ajuda o avião a frear –, por exemplo, apesar de ser opcional em determinadas pistas mais longas, é “obrigatória nas pistas curtas, também chamadas de pistas críticas”, segundo informou o comandante Carlos Camacho, diretor de Segurança de Voo do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA). Apesar disso, o não acionamento do reverso é uma das medidas recomendadas pela Gol para contribuir com a redução do gasto de combustível.
Já o tenente-brigadeiro-do-ar, Mauro Gandra, – também ex-ministro da Aeronáutica no governo Fernando Henrique Cardoso, de 1995, e atual diretor do Instituto do Ar da Universidade Estácio de Sá –, afirma que a medida mais arriscada entre as descritas no informe da Gol seria o não acionamento do reverso. “Quando você tem uma pista mais curta, por exemplo, como a do aeroporto de Congonhas, dificilmente um piloto vai deixar de usar o reverso se precisar dele. Agora, no Galeão, ou em Brasília, pode deixar de utilizá-lo tranquilamente”, compara o tenente-brigadeiro-do-ar.
Incentivo do bônus divide opiniões
Entretanto, para Carlos Camacho, o fator que mais preocupa a classe é a oferta de um bônus aos pilotos. “[A conduta da Gol] nos preocuparia muito por conta da [possibilidade de] bonificação individual, porque geraria uma espécie de competição e aí poderia sim haver o risco, em função do programa de remuneração do fim do ano. Mas sem estar individualizado, o sindicato diminui seu nível de preocupação”, analisa o diretor de Segurança de Voo do SNA.
“O piloto que troca a vida dele por um bônus não é um piloto. Não acredito que alguém, conscientemente, vá colocar em risco a própria vida e a de passageiros por uma bonificação”, ressalta George Sucupira, diretor presidente da Associação de pilotos e proprietários de aeronaves (APPA).
Outra questão levantada por Camacho, no entanto, se refere à imagem da empresa perante os seus funcionários, já que a atitude beneficia pilotos, por ser o começo do processo para ser um PRL (Participação nos Lucros e Resultados). Segundo o comandante, não é uma atitude positiva a empresa “dividir a lucratividade com os pilotos”, alerta Camacho, esclarecendo que o benefício deveria ser extensivo a todos os funcionários para evitar um conflito desnecessário.
Brigadeiro prevê possível revisão antecipada dos motores devido à medida
Com a redução do consumo de combustível, conforme avalia Mauro Gandra, “a companhia pode se atentar, em longo prazo, para o fato de que no fim, deve aumentar o número de horas de voos no motor, o que pode antecipar a revisão destes. Mas esta é uma coisa quase que subjetiva. É preciso fazer uma análise muito mais profunda”, interpreta o tenente.
Sobre as rotas diretas, o brigadeiro ressalvou apenas que a medida pode não funcionar por conta de um intenso tráfego aéreo, mas, em geral, considera possível.
“Bolo cresceu mais que a forma”, diz Carlos Camacho
“O que acontece no Brasil é que o bolo cresceu mais que a forma”, critica o diretor de segurança aeronáutica. “A infraestrutura não dá vazão para a aviação regular no país. Nós não nos preparamos para este bolo exponencial. E é muito difícil correr atrás agora, apesar dos governos estarem tentando”, reconhece o sindicalista.
“O que a Gol está fazendo não é diferente do que a Tam faz com o plano Smart Fuel, e também a Trip, com a sigla IP, o índice de desempenho. Na verdade, o que a Gol criou foi uma problemática salarial nessa fusão com a necessidade de economizar combustível e a reconstrução dos pagamentos. Mesmo caso da Azul, empresa que, segundo os pilotos, reduziu os salários e pede a economia de combustível”, diz o diretor.
Portar menos carga e peso nas aeronaves também já são medidas adotadas, segundo Camacho, exemplificada pela retirada, inclusive, dos alimentos a bordo, para diminuir o consumo do combustível dos aviões.
“Escala torna a vida do piloto um inferno”, afirma diretor da SNA
O comandante Carlos Camacho aponta ainda que o maior conflito na Gol hoje não é a meta de economia de combustível propriamente dita, mas sim as medidas econômicas. “As empresas precisam investir bastante no nível de satisfação das categorias. A Gol começou a mexer nas escalas e parece que a grande jogada da empresa é que o piloto não durma. A escala torna a vida de um piloto um inferno”, exclama o profissional.
De acordo com o sindicalista, “a mudança de escalas leva o tripulante a uma situação de absoluto desconforto e aumenta o nível de risco presente na função”.
“A verdade é que a insegurança está presente onde há uma tripulação infeliz, devido às escalas, onde há, por vez ou outra, o descuido. Fora do avião, quem tem mais poder é o escalador. E a chefia está sempre do lado da empresa. Nove em dez chefes não estão ao lado do trabalhador”, conclui o comandante.
