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''É preciso se livrar das velhas ideias'', diz guru da inovação - 19/10/2018
O canadense de origem indiana Salim Ismail é um otimista por natureza. Um dos fundadores da Singularity University e autor do best-seller Organizações exponenciais, Ismail acredita que as transformações tecnológicas, em breve, vão curar o câncer, erradicar doenças infecciosas e até mesmo libertar a humanidade da burocracia governamental. Palestrante e guru dos profissionais da área de inovação, Ismail hoje trabalha ajudando empresas a se preparar em para a próxima onda de disrupção. Ele garante que em 10 semanas é possível preparar as lideranças para um “crescimento exponencial”. Ismail conversou com os Diários Associados após falar na CEO Conference, o evento anual do BTG Pactual em Nova York.

Muito do que se vê de inovação hoje em dia são apps que facilitam a vida da pessoa, mas não são exatamente uma revolução. A tecnologia está ficando menos relevante para o progresso da humanidade?
É exatamente o oposto. Nos últimos 10 anos, vimos surgir uma explosão de apps e plataformas baseados em tecnologia da informação, e-commerce, etc. Mas o que está acontecendo agora, e isso é parte do motivo que levou à criação da Singularity University, é que o paradigma da informação está extrapolando para outras áreas. Por exemplo: a energia está entrando na era da economia da informação. Em 13 anos, seremos capazes de substituir toda a demanda de GLP (gás liquefeito de petróleo) por energia solar. Energia, saúde e educação são setores tidos como muito tradicionais, mas estão sendo alterados pela informação e pelo conhecimento de forma radical. A gente ainda não viu a explosão de inovação, pois produtos e serviços ainda não emergiram. Mas eles estão chegando. Há grandes revoluções acontecendo com carros autônomos, energia solar, inteligência artificial, robótica, biotecnologia, neurociência. Em cinco ou sete anos, vamos resolver o problema do câncer. É um desenvolvimento profundo da humanidade.

Qual é o grande motor dessa inovação?
Em primeiro lugar, os custos baixaram dramaticamente. No passado, eram precisos US$ 20 milhões para montar uma startup no Vale do Silício. Hoje, você monta uma empresa com US$ 50 mil. É possível criar mais empresas com menos capital de risco. Com a disseminação das tecnologias digitais, como Skype e WhatsApp, a inovação pode acontecer em qualquer lugar. E estamos vendo uma explosão de inovação em todo o mundo.

Quais indústrias serão as próximas a passar por disrupção?
Acredito que a próxima disrupção será na indústria de automóveis. Em 4 a 5 anos, vamos ver o automóvel deixar de ser um produto e se transformar em serviço. Em menos tempo, vamos ver o início de uma grande revolução no setor de energia, movida pelo crescimento exponencial da energia solar. Acho que em dois anos vai haver um novo crash do petróleo – e nada vai ser como antes. Há ainda o setor de saúde, com o câncer sendo tratado de uma forma completamente nova. Mas há outras indústrias tradicionais, como construção, sendo desafiadas.

Se fosse dono de uma rede hoteleira, o que faria se um belo dia acordasse e descobrisse a existência do Airbnb? Venderia o negócio?
Você tem que se reinventar. E não dá para esperar. É preciso aceitar que o seu negócio vai inevitavelmente passar por uma disrupção. No passado, as empresas tinham que fazer apostas e investir bastante capital. Hoje é possível contar com um portfólio de pequenas apostas. E aí você dobra a aposta onde enxergar chance de sucesso. Veja o que aconteceu com as Lojas Americanas. Eles se deram conta de que o futuro estava no e-commerce e lançaram a B2W, que hoje é maior que a nave-mãe. Idealmente, a Ford ou a Toyota é que deveriam ter lançado serviços como Uber. Mas é muito difícil para empresas tradicionais. O grande desafio de gestão hoje é como fazer os CEOs tradicionais pensarem dessa nova forma.

Como isso é possível?
É preciso solucionar o que chamo de ‘problema do sistema imunológico’. Quando você tenta fazer algo disruptivo em uma organização antiquada, os anticorpos atacam você. Todos na empresa falam: ‘Não podemos fazer isso’. Um grande exemplo é a Nestlé, com o Nespresso. Originalmente, o projeto estava dentro da empresa. Durante anos, vários executivos tentaram matar a ideia. Até que o CEO resolveu colocar o projeto fora da principal estrutura corporativa e... boom! Hoje todo hotel no mundo tem uma máquina Nespresso. Não dá pra fazer inovação disruptiva no núcleo da organização. É preciso ir para as beiradas.

Que empresas fazem isso no mundo?
Quem faz isso muito bem é a Apple. A inovação da Apple não está no design ou na tecnologia. É organizacional. Eles têm times que são muito disruptivos. Deixam essas pessoas num canto da empresa, trabalhando em segredo, com a missão de promover uma disrupção em outra indústria. Ninguém mais faz isso. Primeiro foi com a música, depois o telefone, o tablet. E, agora, relógios, saúde, varejo, carros, meio de pagamentos. Não há limite para o valor de mercado. Ou você promove a disrupção ou ela vai atropelar você. Não há meio termo.

Algumas empresas estão criando espaços de coworking para ficar perto do ambiente de inovação e outras estimulam pequenas startups. Esse é um bom jeito de manter o espírito inovador?
O Cubo do Itaú e iniciativas similares são fantásticas. Todas as grandes companhias têm de fazer isso. O mundo está mudando muito rápido, é preciso se aproximar da comunidade de startups. O grande desafio é, uma vez identificada uma oportunidade, trazê-la para dentro da nave-mãe. Esse é o tipo de desafio que ajudamos as companhias a resolver. E que é tema do meu livro, Organizações exponenciais (lançado no Brasil pela HSM), que mostra ser possível formar uma cultura de liderança em 10 semanas. Criamos um manual que as empresas podem baixar e implementar por conta própria. Fizemos um piloto com a Procter & Gamble e, desde então, já aplicamos o modelo em mais de uma dúzia de companhias. No Brasil, fizemos o trabalho com a Coteminas e a Springs Global.


Como avalia o cenário de startups no Brasil?
É muito estimulante. Na Singularity, temos mais alunos do Brasil do que de qualquer outro país. Os brasileiros são loucos e precisamos de pessoas loucas para liderar o mundo. O problema do Brasil é lidar com questões de governo, de corrupção. Tem que solucionar a política. É isso que impede o país de crescer.

Pensando no longo prazo, em qual setor ou tecnologia disruptiva investiria seu dinheiro?
Apostaria em energia solar, embora a gente não saiba ainda qual vai ser o modelo de negócios;  em biotecnologia, que está transformando totalmente a área de saúde. Também tenho muita expectativa com blockchain. Muitos serviços de governo são de autenticação – certificado de posse de uma propriedade, por exemplo. Com blockchain, podemos nos livrar de tudo isso e reduzir a corrupção.

A disrupção da Amazon gerou custos altos para a sociedade, com o fechamento de pequenos e grandes varejistas. É possível afirmar que esse movimento do e-commerce trouxe mais benefícios do que malefícios?
A tecnologia é o maior motor do progresso hoje. O movimento de uma Amazon ou o que aconteceu com a indústria de música, a gente chama de disrupção criativa. É preciso se livrar do velho para dar espaço para o novo. A indústria musical faz mais dinheiro hoje do que nunca. Só que o dinheiro não vai mais para os velhos estúdios, vai direto para os artistas nos shows ao vivo. É um movimento positivo. A Amazon tem forçado o varejo a ser muito melhor em termos de atendimento ao cliente.

O senhor é um otimista por natureza...
Há razão para o otimismo. Se a energia solar baratear drasticamente o preço da energia, vai ser possível ter água limpa e barata. O custo de dessalinização vai cair bastante. Com água limpa, você reduz 60% das doenças infecciosas. Os efeitos são enormes. Há 200 anos, 94% da população vivia na pobreza extrema. Hoje, o índice é de 9,4%. Bill Gates acha que em 12 anos vamos erradicar a pobreza extrema. São mudanças profundas.


E o mau uso da tecnologia?
Há muito mau uso de informação. Existe um estudo sobre a Fox News que diz que se você só assiste ao canal, sua visão geral do mundo piora. É uma tragédia, um grande perigo. Mas acho que o mundo é um lugar melhor hoje. Em 10 anos vai ser ainda melhor, pois teremos resolvido uma série de problemas e doenças. As pessoas ficam aflitas com questões éticas relacionadas ao sequenciamento do genoma, mas ele pode ajudar a eliminar o mosquito que transmite a malária. E muita gente morre de malária. A tecnologia está fazendo a gente andar pra frente e não há como reduzir o ritmo.

Estamos vivendo uma transição?
Sim. Todos os mecanismos de governança que temos hoje – sistema político, sistema jurídico, propriedade intelectual – foram desenhados para um mundo de 100 anos atrás. Veja o Github (repositório de códigos de software comprado pela Microsoft), que é uma das organizações exponenciais mais vigorosas. Eles desenvolveram um sistema de avaliação de desenvolvedores, feito pela própria comunidade. O salário de um desenvolvedor de software, hoje, no Vale do Silício, tem zero correlação com o diploma universitário. O que vale é o rating no Github. É meritocracia medida pela própria comunidade. Vamos sair de um modelo de cima pra baixo, hierarquizado, para uma estrutura “peer to peer”, com estruturas descentralizadas. Como já existe no Airbnb, no Uber. Essas empresas não precisam de governança regulatória externa. A governança é parte do modelo. O mundo vai mudar muito rápido.


 



Fonte: Estado de Minas
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